Efeito borboleta

Terça-feira, 25 Setembro, 2007

[Paciência, mensagem looooonga]

É sempre interessante pensar em como pequenas ações podem causar grandes mudanças na vida de uma pessoa. Às vezes, uma conversa, um conselho, um gesto, faz a pessoa mudar completamente sua vida. Algumas vezes essa mudança ocorre de maneira não tão brusca, mas observável, e essa pertubação vai se acumulando e com o passar do tempo vai causando uma discrepância cada vez maior resultando em uma mudança completa na vida de uma pessoa. É engraçado como o “efeito borboleta” parece ser facilmente aplicável a nossa vida. Na verdade isso é um puta clichê, assim como todo esse texto que já faz uma semana que eu tento melhorar.


Edward Norton Lorenz é o nome.

Tem um cara que é muito amigo dos meus irmãos há muito tempo atrás. Não sei como aconteceu, mas meu irmão mais velho e, no ano seguinte, ele resolveram tentar fazer o vestibular da Unicamp e foram aprovados. Ele cursou engenharia de computação lá e terminou antes que eu fosse para a Unicamp. Com certeza isso teve alguma influência na escolha do meu curso em 2003, assim como o fato do meu irmão estar em Campinas foi um fator decisivo. Eu poderia falar sobre o que fez com que esses garotos do colégio Batista quisessem fazer Unicamp, tentando encontrar uma ação que mudou completamente os meus últimos 5 anos mas eu não sei o que foi e não é nisso que estou interessado agora.

Na verdade, a pessoa importante na história é o irmão mais novo desse amigo dos meus irmãos. O Thiago é uma das pessoas jovens mais inteligentes que eu conheço. A restrição jovem é que por estar imerso no meio acadêmico, já conheci muitos professores fodões que não quero levar em consideração. Como todo mundo adora dizer que os outros são inteligentes, esse adjetivo não tem tanto impacto quanto deveria, mesmo dizendo “mais inteligentes que eu conheço”. Então vou resumir com dois fatos: Fez intercâmbio no Caltech e já ganhou pelo menos um ouro em olímpiada internacional de matemática (não conheço ele tão bem para saber quantas vezes ele ganhou). Se alguém não conhece o Caltech, é um instituto que já faturou 31 prêmios nobel, o que dá uma média de mais de 1 nobel para cada 1000 alunos que já passaram por lá (e isso porque eu não consegui descobrir quantos medalhas fields eles tem).

O Thiago entrou na Engenharia de Computação da Unicamp três anos antes de mim. Perto do final de 2005, quando eu havia conversado com ele poucas vezes, encontrei ele e ele começou a fazer propaganda do curso de verão do Impa. Na época, eu estava fazendo uma disciplina na Unicamp chamada “Métodos Matemáticos para Computação” com o professor Rezende. Nessa disciplina, dentre outras coisas, vimos uma base matemática de lógica, métodos de prova, axiomas, conjuntos, relações etc… Tudo isso me deu uma impressão que eu tinha começado a aprender matemática a partir daquele momento. De repente a definição epsilon delta de limite que era um terror para mim e que eu não entendia desde o cálculo 1 se tornou algo trivial. De um dia pro outro a matemática mudou completamente e tornou-se muito mais bela. O Thiago fez essa propaganda com tanta paixão que junto com a empolgação que eu estava com matemática não tinha como não querer ir.

Quando eu cheguei em casa a primeira coisa que eu fiz foi escrever um e-mail, tentando colocar tudo que ele tinha me falado, e enviei para o Arthur e o Aleksey que eram os únicos que eu achava que poderiam se interessar. O Arthur se empolgou também e nós fizemos a inscrição. Em dezembro o Impa avisa que nós dois fomos aprovados para receber bolsa durante o curso. Nos quinze dias que tive antes de ir para o Rio, consegui um lugar para ficar graças ao Paulo Fernando.

Passei 2 meses ótimos no Rio fazendo o curso de Análise na Reta, que parecia que tinha sido planejado pra mim. Estava no ritmo perfeito, não assumia nada que eu não soubesse e partia das bases (axiomas de Peano e conjuntos) o que foi algo perfeito para mim ver naquele momento. Como era de se esperar de um curso de Análise do Impa, o livro utilizado era o livro do Elon, mas além disso, tivemos metade das aulas com o próprio. Pois é, eu vi as belezas do conjunto de Cantor em uma aula do Elon L. Lima. Mas esse tempo no Rio de Janeiro não foi só estudo. Apesar de eu ter estudado como nunca para uma única disciplina, ter conseguido manter a matéria extremamente em dia incluindo os exercícios (que eram vários), era apenas uma disciplina! Eu tinha tempo de sobra. E nesse tempo eu vivi dois meses à parte. Enquanto estive lá, fiquei com o hábito de ler o jornal quase todas as manhãs. Eu mal lia os livros da universidade. No Rio passei a freqüentar a livraria que tinha perto de casa, onde devo ter gastado muito dinheiro. Nunca li tanto. Machado de Assis, Raquel de Queiroz, Luiz Fernando Verissimo e vários do Fernando Sabino. Isso que eu estou lembrando agora. Andava na praia várias vezes por semana e algumas vezes eu corria. Só usava o computador no Impa, ou seja, quase não usava e praticamente não escutava música. Fui no show de várias bandas undergrounds, algo que eu estava viciado em escutar nos meses antes de ir para o Impa. Além disso tudo, ainda dava para perder umas 2 horinhas por dia com ônibus para ir e voltar do Impa (maldito 125). Em dois meses eu conheci mais o Rio do que eu conheci Campinas em três anos. “Ah se meus amigos morassem aqui” foi algo que eu pensei várias vezes. De quebra eu ainda aproveitei 6 créditos na unicamp, ganhei uma grana e hoje em dia eu posso dizer que já fui num show do Rolling Stones.

Depois que as pseudo-férias terminaram voltei pra Unicamp e a vida continuou quase como antes, exceto pelo fato que minhas notas melhoraram (pode não ter sido culpa do Impa, já que ao mesmo tempo comecei a ter muito mais disciplinas de computação, morar sozinho, etc). No segundo semestre, recebo um e-mail falando de um tal de programa de duplo diploma com várias universidades francesas etc. Após muita luta (currículo, cartas de recomendação, carta de motivação, etc), eu, o Arthur e o Aleksey consiguímos nos inscrever fora do prazo. Isso porque o Arthur conseguiu fazer o pessoal da polytechnique liberar o site da inscrição denovo pra gente. Na minha inscrição foi meu currículo com o nome do Impa estampado e, no meio das cartas de recomendação, uma do Elon. Pois é senhores, o Arthur foi cara de pau o suficiente para pedir uma carta de recomendação pro Elon e logo que ele recebeu uma resposta positiva eu mandei um e-mail pedindo também.

Fizemos uma prova escrita e voilà, algumas das poucas questões que eu acertei foram por causa do tal curso. Um bom tempo depois, recebi um e-mail falando que iam três professores da Polytechnique para fazer prova oral na Unicamp com apenas quatro alunos. A primeira que eu fiz foi de matemática. Quase tudo que o cara perguntou foi de Análise! Isso, juntamente com o fato que eu tive uns surtos de inspiração que nunca tive antes, me renderam um desempenho entre razoável e bom na tal prova. Depois veio a prova de física e de conhecimentos gerais e meu desempenho foi caindo linearmente – na de física eu fui ruim e na de conhecimentos gerais eu me fudi, o cara conseguiu me deixar em xeque algumas vezes e terminou me dando um xeque-mate.

Tentando relembrar algumas coisas, acabei achando um e-mail que um professor da unicamp me encaminhou, vindo do pessoal da Polytechnique (o e-mail não deveria ter chegado nas minhas mãos). Na época eu não entendi muito bem por causa do francês. Agora, pelo que dá para entender (falta um anexo) o Arthur já havia sido aprovado e eu estava em uma lista de espera. Um juri iria ser realizado no dia seguinte pra decidir se eu entrava ou não.

Acabou dando tudo certo e eu fui aprovado. Considerando que o Impa teve influências pesadas no currículo, nas cartas de recomendação e nas duas provas e que eu passei no limite, posso dizer seguramente que eu só fui aprovado por causa do Impa. Desconfio que o Arthur também possa dizer o mesmo. Ou seja, aquela conversinha que eu tive com o Thiago um dia acabou fazendo com que eu e o Arthur viéssemos estudar na Ecole Polytechnique. Por causa disso, eu já morei com uma família francesa, conheci a neve, tentei andar de perna de pau, joquei muito poker, fiz uma viagem louca pelo leste europeu, desenhei mulher pelada, etc etc etc… Parece um tanto óbvio que daqui há 10, 20, 30 anos, minha vida será completamente diferente do que teria sido se a propaganda do Thiago não tivesse dado certo.

Porque eu resolvi falar isso? Porque há umas duas semanas o Arthur escreveu um e-mail fazendo propaganda da X, eu dei uma revisada e ele enviou para algumas turmas de bixos nossos. Será que o Arthur vai acabar causando uma grande mudança na vida de alguém com esse e-mail?

[É possível se inscrever na polytechnique à parte, como foi o caso do mexicano da minha promoção. A inscrição termina no dia 1 de outubro, desconsiderando a possibilidade de pedir para eles reabrirem :P. Se alguém estiver interessado, deixa o e-mail ai que eu tento ajudar.]

8 Responses to “Efeito borboleta”

  1. debby Says:

    quer dizer que se nao fosse por esse tal thiago, eu nao estaria sem meu namorado agora??? GRRRRRRRRRRRRRRRR!!

    brincadeira =P

  2. debby Says:

    é acho q ele mudou minha vida toda tambem…

  3. Cira Says:

    Davi

    Essa página está linda.
    Cada vez você me deixa mais encantada com você.
    Você é uma pessoa que tem muita sensibilidade e muita profundidade. Tem muita segurança no que faz e quando toma uma decisão sei que foi antecedida de uma boa reflexão.

  4. Alek Says:

    Que nostalgia!

    É curioso, mas na verdade eu não sei se lamento ou se comemoro por não ter ido com vocês. Hoje, trabalho num dos melhores estágios da nossa área, estou aproveitando melhor meu tempo na graduação, estou numa relação estável e de confiança, e criei melhores expectativas de maneira geral… Evidentemente não há como comparar a minha experiência atual com a hipótese de vida que eu teria junto a vocês aí, mas num âmbito absoluto eu certamente não posso me queixar de nada – senão pelo fato de que eu sinto enormes saudades de vocês, das nossas reuniões absurdamente nerds, das noites varadas estudando no IC e tudo mais, e não duvido que todos os outros aqui também sentem falta destes momentos.

    (Ok, somado a isso, talvez eu tenha esquecido tanta matemática que hoje mal sei somar número com vírgula, mas…)

    O final do ano passado foi uma encruzilhada tremenda na vida de nós três, e o seu “completamente diferente” no final do texto merece mais negrito do que de fato lhe foi dado: eu não consigo imaginar o contraste que há entre esse nosso amanhã, real, e o amanhã imaginário, no qual tantas outras coisas mais tivessem acontecido no lugar dessas. Com o passar dos anos, esses futuros não têm mais nenhuma intersecção.

    Viver não é preciso: à parte o lugar-comum, não deixa de ser uma verdade. Que esperemos sempre ansiosamente por mudanças boas vindas do acaso.

    PS: Parem de roubar nossos bixos! Deixem eles aqui! :P

  5. dmjb Says:

    Só queremos alguns poucos bixos Aleksey!
    Vi hoje a versão final do e-mail do Arthur e no final tem “vamos aumentar a fama da Unicamp também!”
    uhhauhahuahuhauhuahuahu

  6. JLucas Says:

    Oi Davi,
    Como voce pode perceber, estou bem atrasado na leitura de seu blog… Vai aqui um comentario atrasado. Gostaria de saber se voce ja escreveu para o Elon agradecendo ter enviado a carta de recomenção e informando que foi aceito e que esta indo bem. Para ele é também importante saber que valeu a pena.
    Lucas


  7. [...] com o objetivo de sair daqui. Fomos em um grupo grande, incluindo o Thiago (que eu já havia citado aqui no blog). Ele tá aqui na polytechnique, por uns 3 meses, sendo o primeiro P.I. brasileiro [...]

  8. debby Says:

    gente que coisa loca


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